Montag, 18. August 2014

POR QUE VOCÊ LUTA?

Os dois ficaram quietos por um instante, comendo, até que Oromis perguntou:
- Você pode me dizer qual é a ferramenta mental mais importante que uma pessoa pode possuir?
Era uma pergunta séria e Eragon ficou pensando por um bom tempo antes de se aventurar a dizer:
- Determinação.
Oromis partiu o pão ao meio com seus dedos longos e brancos.
- Posso entender por que você chegou a essa conclusão... A determinação lhe serviu bem nas suas aventuras... Mas não. Refiro-me a ferramenta mais necessária para que se possa escolher a melhor rota de ação em qualquer situação que é apresentada. A determinação é tão comum entre homens que são tolos estúpidos como o é entre os mais brilhantes intelectos. Então, não, a determinação não pode ser o que estamos procurando.
Desta vez, Eragon tratou da questão como se fosse uma charada, contando o número de palavras, sussurrando-as em voz alta para ver se rimavam, e por outro lado examinando-as para descobrir algum significado oculto. O problema era que ele não passava de um adivinho medíocre, que nunca ficou muito bem colocado nos concursos anuais de charadas em Carvahall. Pensava de forma literal e mal podia decifrar charadas desconhecidas, era um legado da formação prática de Garrow.
- Sabedoria - finalmente disse Eragon. - A sabedoria é a ferramenta mais importante que uma pessoa pode possuir.
- Um bom chute, porém, mais uma vez, não. A resposta é lógica. Ou, para colocar de outra maneira, a capacidade de raciocinar analiticamente. Caso seja aplicada apropriadamente, ela pode superar qualquer falta de sabedoria, que a pessoa ganha através da idade e da experiência.
Eragon franziu a testa.
- Sim, mas ter um bom coração não é mais importante do que a lógica? A lógica pura pode levá-lo a tirar conclusões que são eticamente erradas. Ao passo que se tiver moral e for justo, isso lhe garantirá não vir a agir de forma vergonhosa.
Um sorriso fino como uma navalha fez os lábios de Oromis se curvarem.
- Você está confundindo as coisas. Tudo o que eu queria era saber qual é a ferramenta mais útil que uma pessoa pode ter, independente de ela ser má ou boa. Concordo que é importante ter uma natureza virtuosa, mas eu também discutiria isso se você tivesse que escolher entre dar a um homem um caráter nobre ou ensiná-lo a pensar claramente, você faria melhor em ensiná-lo a pensar claramente. Muitos problemas neste mundo são causados por homens nobres de mentes obscuras.
“A história nos mostra inúmeros exemplos de pessoas convencidas de que estavam fazendo a coisa certa e cometeram crimes terríveis por causa disso”. Tenha em mente, Eragon, que ninguém pensa em si próprio como um vilão, e poucos tomam decisões que julgam ser erradas. Uma pessoa pode não gostar de sua escolha, mas a defenderá o tempo todo porque, mesmo nas piores circunstâncias, acredita que é a melhor opção disponível no momento.
"Por iniciativa própria, ser uma pessoa decente não é garantia de que você agirá bem, o que nos traz de volta à única proteção que temos contra demagogos, malandros e as loucuras das multidões, e o nosso guia mais seguro para superar os obstáculos incertos que enfrentamos ao longo da vida: o pensamento claro e razoável. A lógica jamais falhará com você, a não ser que você não saiba – ou ignore deliberadamente – as consequências dos seus feitos.”
- Se os elfos são tão lógicos - disse Eragon -, então todos vocês devem concordar no que deve ser feito em qualquer situação.
- Raramente - asseverou Oromis. - Como todas as raças, aderimos a uma ampla gama de princípios e, como resultado, normalmente chegamos a conclusões divergentes, mesmo em situações idênticas.
Conclusões que, devo acrescentar, são lógicas de acordo com o ponto de vista de cada pessoa. E embora gostaria que as coisas fossem de outro jeito, nem todos os elfos treinaram suas mentes de forma apropriada.
- Como você pretende me ensinar essa lógica? Oromis deu um largo sorriso.
- Através do método mais antigo e eficiente: debatendo. Irei lhe fazer uma pergunta e então você responderá e defenderá sua posição. - Ele esperou enquanto Eragon enchia sua tigela novamente com o ensopado. - Por exemplo, por que você luta contra o Império?
A súbita mudança de tópico pegou eragon desprevenido. Ele tinha a sensação de que Oromis apenas agora falava o pretendia abordar o tempo todo.
- Como já disse antes, para ajudar aqueles que sofrem com o domínio de Galbatorix e, em segundo lugar, por causa de uma vingança pessoal.
- Então você luta por razões humanitárias?
- O que você quer dizer?
- Que você luta para ajudar as pessoas que Galbatorix maltratou e evitar que ele prossiga com isso.
 - Exatamente - disse Eragon.
- Ah, então me responda isso, meu jovem cavaleiro: será que a sua guerra contra Galbatorix não causará mais dor do que evitará? A maioria das pessoas no império tem vidas normal e produtiva, elas permanecem livres da loucura do rei. Como você pode justificar uma invasão às suas terras, a destruição de seus lares e a morte de seus filhos e filhas?
Eragon ficou pasmo e atordoado por oromis ter coragem de fazer tal pergunta – Galbatorix era mau – E nenhuma resposta fácil lhe vinha à mente. Ele sabia que estava do lado certo, mas como poderia provar?
- Você não acredita que Galbatorix deveria ser destronado?
- Essa não é a pergunta.
- Porém você tem de acreditar - insistiu Eragon. - Veja o que ele fez com os Cavaleiros.
Molhando um pedaço de pão no ensopado, oromis voltou a comer deixando Eragon se irritar em silêncio. Quando terminou, Oromis cruzou as mãos sobre o seu colo e perguntou:
- Eu o decepcionei?
- Sim, decepcionou.
- Entendo. Muito bem, continue a refletir sobre a questão até encontrar uma resposta. Espero que seja uma bem convincente.



( Paolini, Christopher. Eldest. Rocco: Rio de Janeiro, 2005, p. 327-228).

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