Montag, 27. April 2015

Jetzt oder bald


I. Não vou falar.
"Nunca mais a verei!".
Pra quê falar se, antes que eu abra a boca, você já tem sua resposta? Se você já tem uma discurso pronto antes de saber o que eu tenho a dizer? Você sequer considera o que eu digo? Conviva a sós com a imagem que fez de mim, e se perca no preconceito de achar que não tem pré-conceitos pré-julgando os outros pelos preconceitos que você presumiu.
Reconheço que tenho toda e qualquer circunstância contra mim, e a favor... do seu pré-conceito. Dói em mim também. Em mim pode? Obrigado. Obrigado pela dor. Ela me faz debater pra ficar de olhos bem abertos e com os pés no chão.


II. Não vou falar.
"Nunca mais a verei!".
Eu amo você. Eu amo sua personalidade. Eu amo sua conversa. Eu amo sua vontade. Eu amo quando você gosta de mim. Mas eu odeio quando você escolhe me odiar, e me metralha de imputações incontraditadas e sem contraditório, e me julga por ter nascido - homem, feio, alto, baixo, magro, bonito, gordo, estranho demais, normal demais, branco demais, talvez empenhado demais pra ser legal (a graça é dizer que, mesmo que todos tenham sonhos, o comodismo vale tanto quanto coragem). Sério demais, sou. Sou? Sério demais. Chato. Sou chato. Eu não tenho um penteado diferente, do pouco cabelo que tenho, nem barba. Podia ter barba, seria mais aceitável socialmente. Opa. Inverteu? Inverteu. "Não-querer-ser-socialmente-aceitável-e-por-isso-usar-barba" agora é a da hora. Boa. Eu não quero. Não queria o pagode, não quero isso. Não quero o pagode se eu não estiver a fim, nem a barba, nem a parada oriental, nem a guitarra. Eu não quero você me rotulando às avessas, se julgando de um patamar superior. Se magoando a cada palavra minha e achando que sempre está do lado do bom senso, arrumando sempre desculpas pra não parar de fugir de um milhão de verdades e hell hounds pelos anos em que vai virando adulto. Não vou mais falar. "Nunca mais a verei!". Você já tem a resposta antes da pergunta.

III. Não vou falar.
"Nunca mais a verei!".
Andei mais junto da arte do que você consegue imaginar a meu respeito, e todos os dias ela vem me visitar. Mas me distanciei pra ver que ela é parte de um quadro maior. Eu sou constantemente perturbado pela soma estética de você, e em boa parte minhas crises a respeito são ora ciúmes ora trauma/Träume prévio(s) de rejeição. Tanta contemplação somada a tanto trauma que me tornei, sim, misógino, apesar de que não no sentido que sei que você buscaria, acharia e me tacharia de cara. Evito ter contato com essas construções estéticas que me deixam fascinado porque elas trazem muita dor. Boa parte da dor vem das lembranças de você, o que é estranho diante de tantos outros motivos que eu poderia ter. Amo-a tão profundamente que sua falta de jeito consigo mesma causou um rasgo lancinante desde bem dentro de mim. Amo-a, mas a  repugno, sangro, afasto, esqueço.

IV. Não vou falar.
"Nunca mais a verei!".
Eu quis ser outro. Eu quis ser outra. Tentei ser outra, fui outra. Me entristeceu o fato de que eu não estava errado, bastava isso. Bastou ser socialmente aceitável, e tudo flui, tudo é simples. Vi, então, que é tudo pré-conceito. Não, não é pré-conceito, é tudo preconceito. A pós-modernidade moderna, dos que não sabem aceitar a quebra e relativização dos valores, e acabam engolindo, absolutizando e repetindo os mesmos passos com outros valores (ou os mesmos, disfarçados). A dialética sem diálogo. Eu tentei ser outra. Continuo querendo profundamente ter nascido outra, que não estivesse em minha situação e tivesse uma chance de fazer diferente. Não importa.

V. Não vou falar.
"Nunca mais a verei!".
Eu vou. Ich bin jetzt oder bald gehen. Amo-te profundamente, desejo ardentemente que pudesse recomeçar. Queria do fundo do coração que você aprendesse a ser sincera. Eu te ajudaria no que fosse necessário, e a gente consertaria tudo isso que ficou pelo caminho, e assustaria esses hell hounds, e correria atrás antes que fosse tarde demais. Eu preciso também de sua ajuda. Eu queria ser outra, porque sei que seria mais fácil. Mas há mudanças impossíveis, e eu acredito no universo. Se você amadurecesse um pouco e fosse sincera, eu voaria pra ajudá-la, sem nada mais. Essa, provavelmente, é uma das últimas sinceridades que te escrevo, e, acredite, com todo amor que alguém poderia escrever. Pra dizer que você está fora dos meus contatos, e eu estou indo pra lugares onde talvez você não me encontre mais. Você foi cotidiana nos meus pensamentos e na minha preocupação, mas agora eu preciso ir. Parece que isso vai acabar sem você entender o que aconteceu por aqui.

Amo-te profundamente.

"Não, Carlota. Nunca mais a verei'.

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