Samstag, 17. September 2016

Apolo e Dafne

"A lama com que a terra fora coberta pelas águas do dilúvio desencadeou uma excessiva fertilidade, que deu origem à uma gama muito grande de coisas, tanto boas como más. Dentre elas, uma Piton, uma enorme serpente, que se arvorou em terror dos sobreviventes, tendo-se homiziado nas cavernas do Monte Parnaso. Apolo teve a coragem de matá-la com suas flechas -- recurso esse que ele não havia usado antes, exceto nos períodos de caça a animais de pequeno porte, lebres, cabras selvagens, e nos momentos de diversões desse tipo. Para celebrar essa brilhante conquista, ele instaurou os jogos píticos, onde o vitorioso, como prova de força e agilidade nos pés, ou nas corridas com carruagens, era recompensado com uma coroa feita com folhas de faia; porque o loureiro ainda não havia sido adotado por Apolo como sua árvore favorita.

A famosa estátua de Apolo chamada de Belvedere representa o deus depois da vitória sobre a serpente Píton. A este fato Byron faz alusão em seu "Childe Harold," iv., 161:


O senhor do arco certeiro,
O deus da vida, da poesia e da luz
O Sol, provido dos membros e da fronte dos humanos
Todo radiante por seu triunfo na luta
A flecha havia acabado de ser lançada, uma flecha brilhante
Como a vingança de um imortal; em seu olhar
E na narinas, um belo desdém, e poder
E a majestade faz reluzir completamente todo seus relâmpagos
Explodindo a divindade com um único olhar.



Dafne foi o primeiro amor de Apolo. E o amor deles não foi produto do acaso, mas resultado das artimanhas de Cupido. Apolo encontrou o menino brincando com seu arco e suas flechas; e estando ele muito extasiado pela sua recente vitória sobre a Píton, Apolo disse para ele, "Porque te divertes com armas perigosas, garoto insolente? Deixe-as para mãos preparadas para coisas desse tipo. Contempla as conquistas que alcancei ao fazer uso delas contra a gigantesca serpente que estendeu seu corpo venenoso muito além das fronteiras do planalto! Ficai satisfeito com a vossa tocha, garoto, e acendei a vossa chama onde desejares, como é de vosso costume, mas não ouses mexer com minhas armas." O filho de Vênus ouviu estas palavras, e respondeu, "Tuas flechas podem ferir todas as outras coisas, Apolo, mas as minhas podem te ferir". E dizendo isso, colocou-se de pé sobre uma rocha do Parnaso, e tirou da aljava duas flechas com diferentes funções, uma para incitar ao amor, e a outra para rejeitá-lo. A primeira era de ouro e a ponta era bem afiada, e a segunda, com ponta mal aparada, era feita de chumbo. Com a flecha de chumbo ele acertou a ninfa Dafne, a filha de Peneus, o deus dos rios, e Apolo, ele acertou com a flecha de ouro bem no coração. De modo que o deus se apaixonou pela donzela, e ela sentia horror aos anseios de amar. O que ela mais apreciava eram os esportes da floresta e os espólios da caça. Muitos pretendentes a procuravam, porém, ela os tratava com desprezo, perambulando pela floresta, sem nem sequer pensar em Cupido nem em Himeneu. Seu pai costumava dizer a ela, "Filha, deves dar-me um genro; e também deve dar-me netos." Ela, odiando a ideia de casar, como se isso fosse um crime, com seu lindo rosto e toda corada de vergonha, abraçou o pescoço de seu pai, e disse, "Querido pai, concede-me esta dádiva, que eu permaneça sempre solteira, como Diana." Ele concedeu, mas ao mesmo tempo disse, "O teu próprio semblante está dizendo o contrário."


Apolo a amava, e há muito tempo a desejava; e aquele que fazia previsões para todo o mundo não foi sábio o bastante para vaticinar o próprio destino. Vendo que os cabelos dela caíam soltos sobre seus ombros, disse, "Se são tão belos em desalinho, como seriam se bem arranjados?" Ele viu que os olhos dela brilhavam como as estrelas; olhou para os lábios dela, e não ficou satisfeito somente em olhar para eles. Tinha muita admiração pelas mãos e pelos braços dela, nus até os ombros, e tudo que ficava oculto à vista ele imaginava mais belo ainda. Ele a seguia; ela fugia, mais veloz que o próprio vento, e diante das insistências dele, ela não cedeu em nenhum momento. "Fica," disse ele, "filha de Peneus; não sou teu inimigo. Não fujas de mim como um cordeiro foge de um lobo, ou uma pomba foge de um falcão. É por causa do amor que eu te persigo. Me entristeces, pois temo que caias e te machuques em uma dessas pedras, e terei sido eu o motivo desse acidente. Te imploro para que vás mais devagar, e te seguirei mais devagar ainda. Não sou nenhum boçal, nem algum aldeão rude. Júpiter é meu pai, e eu sou o senhor de Delfos e de Tenedos, e eu conheço todas as coisas, o presente e o futuro. Eu sou o deus da música e da lira. Minhas flechas partem certeiras para o alvo; porém, ó infortúnio! uma flecha mais fatal que a minha atingiu meu coração! Sou o deus da medicina, e conheço o poder de todas as plantas que curam. Pobre de mim! Sofro de uma enfermidade que nenhum bálsamo pode curar!"


A ninfa continuava a fugir, quase não conseguindo ouvir o que Apolo dizia. E mesmo na sua fuga ele sentia-se ainda mais encantado por ela. O vento soprava-lhe as vestes, e seus cabelos soltos voavam livremente com o vento. O deus então ficou impaciente ao perceber que seus apelos não encontravam resposta, e, auxiliado por Cupido, conseguiu vencê-la na corrida. Era como se um cão estivesse perseguindo uma lebre, com a boca aberta para devorá-la, enquanto o animal mais frágil continua a avançar, tentando escapar de ser agarrado. E assim se distanciavam o deus e a virgem -- ele nas asas do amor, e ela nos braços do pavor. O perseguidor consegue ser mais rápido, todavia, e consegue se aproximar cada vez mais dela, e ela já consegue sentir a respiração ofegante do deus em seus cabelos. Ela começa a perder fôlego, e, percebendo que poderia cair, apela para o seu pai, o deus dos rios: "Me ajude, Peneus! abra a terra para que eu seja engolida por ela, ou modifica a imagem, que me colocou diante do perigo iminente!" Mal havia falado estas palavras, e ela sente que seus membros ficaram rígidos; sentiu que seu peito era envolvido por uma suave casca; os seus cabelos se tornam folhas; os seus braços se transformam em galhos; os seus pés penetram nas profundezas do solo, como raízes; o seu rosto, torna-se como a copa de uma árvore, nada conservando da sua forma anterior com exceção da beleza. Apolo ficou perplexo. Tocou os galhos, e sentiu que um corpo vibrava debaixo da nova casca. Ele abraçou os galhos, e encheu de beijos a árvore. Os galhos se retraíram ao contato dos lábios dele. (...)


Que Apolo fosse o deus tanto da música como da poesia não parece singular, mas que a medicina também fosse atribuída à sua região, sim. O poeta Armstrong, sendo também médico, faz a seguinte menção:


"A música exalta toda a alegria e alivia todo pesar
Expulsa a doença, e ameniza toda dor
É por isso que os antigos sábios a apreciavam
O poder da medicina, da melodia e da canção."

A história de Apolo e de Dafne é frequentemente mencionada pelos poetas. Waller a utiliza no caso daquele cujos versos de amor, que embora não amoleçam o coração de suas amadas, conquistam para o poeta fama e renome:


No entanto, a sua canção de esforço imortal
Embora não tenha sido um sucesso, não foi cantada em vão
Todos com exceção da ninfa deveriam corrigir o engano
Que atenda à paixão e e encha de aplausos a melodia
Assimo como Febo, que conquista o louvor indiretamente
Agarrou o amor e encheu seus braços de glória.



A estrofe a seguir de "Adonais", da autoria de Shelley faz menção dos primeiros questionamentos de Byron com os revisores:


Os lobos em bando, com coragem para a perseguição
Os ousados urubus, clamorosos sobre os que se foram
Os abutres, que são a verdadeira bandeira do conquistador
Que se alimentam, do que primeiro alimentou a Desolação
E cujas chuvas de asas contagiam: quando fugiram
No momento em que Apolo, com sua flecha de ouro
A Pítia da era que alguém consagrou
E sorriu! Os travessos não intentam uma segunda investida
Festejam com os pés da soberba que os rejeita na retirada."







(BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia. São Paulo: Martin Claret, 2013, p. 51-54).

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