Vivíamos num grande palácio de mármore que dava para o "canaleio", cheio de afrescos e estátuas, com dois ticianos da melhor época no quarto de dormir de Clarimonde; um palácio digno de um rei. Possuíamos cada um a sua gôndola e os nossos barcos com homens vestidos com as nossas cores, nosso quarto de música e o nosso poeta. Clarimonde achava que só valia a pena viver com grandeza e na sua natureza havia um pouco de Cleópatra. Quanto a mim, levava uma vida de filho de príncipe e me exibia como se fosse da família de um dos doze apóstolos, ou dos quatro evangelhistas da república sereníssima; não teria desviado do meu caminho para dar passagem ao doge, e não creio que alguém, desde que Satã caiu do céu, tenha sido mais orgulhoso e insolente do que eu.
E, no entanto, apesar da dissipação dessa vida, continuava fiel a Clarimonde. Amava-a perdidamente. Ela despertara a exuberância e fixara a inconstância. Ter Clarimonde era ter vinte amantes, possuir todas as mulheres, tanto ela era móvel, versátil e diferente de si mesma: um verdadeiro camaleão. Cometia com elas as infidelidades que outras poderiam provocar, tomava completamente a personalidade, a aparência e o tipo de beleza da mulher que parecia agradar-me. Devolvia o meu amor multiplicado por cem e foi em vão que os jovens aristocratas e os velhos do conselho dos Dez lhe fizeram as mais magníficas propostas. Um Foscari propôs-lhe até casamento; sempre recusou tudo. Tinha ouro suficiente; só queria o amor, um amor jovem, puro, despertado por ela, um amor que devia ser o primeiro e o último. Eu teria sido completamente feliz se não fosse um pesadelo que retornava todas as noites, no qual pensava ser um pároco de aldeia, mortificando-me e penitenciando-me dos excessos diurnos. Tranquilizado pelo hábito de viver com ela, quase não pensava mais na maneira estranha como a conhecera.
(Gautier).
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