Samstag, 17. März 2018

Scintilla


Hoje eu deixei uma hipnose profunda, e passei para um segundo nível no qual descobri que fui eu – sempre eu – por trás desses sonhos. Fui eu que falei com você, e era eu no canto da sala e no seu ouvido a cada momento que se tecia.
Hoje entrei em luto, porque descobri que vivemos muito pouco. O tamanho da nossa vida é ínfimo, ridículo, pois ainda que em corpo imperecível não vivemos mais do que o sopro dos ideais e personalidade que nos abate; em uns poucos segundos ou meses evanescemos e não mais habitamos a matéria que antes nos abrigou.
Ora, somos, também, matéria. Verdade inescapável. Nada temos de metafísico, e cada traço de nossa existência é marcado pelas leis da física, da química e da biologia – não há quem disso possa escapar.
O que marcou o Zeitgeist de idos evos não mais nos aflige; éramos o resultado da nossa alma. O que fazíamos, pensávamos, queríamos, era resultado implacável da entidade em nossa substância depositada. Nossa alma: a divisão entre a física e a metafísica.
Subi, até me faltarem escadas, mesmo acima da minha própria cabeça, pra descobrir que nada há em mim que não seja matéria, e que minha personalidade não mais habitava na pretérita essência intangível; era antes resultado de todo o complexo concertado de situações, interações e sensações que afetavam meus sentidos ao momento.
Vi também que todas essas situações eram passageiras, e tão pouco duráveis quanto fossem era também minha alma, que desvanecia e se arredava na medida em que minha forma caminhava pela terra.
Já o “eu sou” faz muito menos sentido do que o “eu estou”; estilhaçado resta a noção do “eu”. Pouco, pouquíssimo tempo tenho pra usar o pronome – em breves instantes não mais serei que “ele”, e o “ele” já não servirá a quem o vestiu.
Não há quem seja perene; não há quem se mantenha imortal. Terminando o fragmento já me despeço do que fui, do que era quando o comecei a redigir. E já novamente me enluto, e dou permissão de entrada a todas as centelhas que batem à porta na existência da minha matéria.

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