Hoje eu deixei uma
hipnose profunda, e passei para um segundo nível no qual descobri
que fui eu – sempre eu – por trás desses sonhos. Fui eu que
falei com você, e era eu no canto da sala e no seu ouvido a cada
momento que se tecia.
Hoje entrei em luto,
porque descobri que vivemos muito pouco. O tamanho da nossa vida é
ínfimo, ridículo, pois ainda que em corpo imperecível não vivemos
mais do que o sopro dos ideais e personalidade que nos abate; em uns
poucos segundos ou meses evanescemos e não mais habitamos a matéria
que antes nos abrigou.
Ora, somos, também,
matéria. Verdade inescapável. Nada temos de metafísico, e cada
traço de nossa existência é marcado pelas leis da física, da
química e da biologia – não há quem disso possa escapar.
O que marcou o
Zeitgeist de idos evos não mais nos aflige; éramos o resultado da
nossa alma. O que fazíamos, pensávamos, queríamos, era resultado
implacável da entidade em nossa substância depositada. Nossa alma:
a divisão entre a física e a metafísica.
Subi, até me
faltarem escadas, mesmo acima da minha própria cabeça, pra
descobrir que nada há em mim que não seja matéria, e que minha
personalidade não mais habitava na pretérita essência intangível;
era antes resultado de todo o complexo concertado de situações,
interações e sensações que afetavam meus sentidos ao momento.
Vi também que todas
essas situações eram passageiras, e tão pouco duráveis quanto
fossem era também minha alma, que desvanecia e se arredava na medida
em que minha forma caminhava pela terra.
Já o “eu sou”
faz muito menos sentido do que o “eu estou”; estilhaçado resta a
noção do “eu”. Pouco, pouquíssimo tempo tenho pra usar o
pronome – em breves instantes não mais serei que “ele”, e o
“ele” já não servirá a quem o vestiu.
Não há quem seja
perene; não há quem se mantenha imortal. Terminando o fragmento já
me despeço do que fui, do que era quando o comecei a redigir. E já
novamente me enluto, e dou permissão de entrada a todas as centelhas
que batem à porta na existência da minha matéria.
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