Hoje eu estive com alguém que não morreu. Hoje conheci Gregório, cujo nome constou de róis e arrolamentos dos anos de meu triavô, e cuja pele remanescia em um tom diverso das jovens e diverso das velhas. Esperei ver nele algo diferente. Gregório jantou à minha mesa.
Esperei, sempre, que não morrer nos faria isentos, neutros e profundos. Equilíbrio é um dom, a consciência parece inata.
Esperei ver em Gregório respostas. Ao longo da conversa, pareceu para mim que sua ignorância, suas tendências e suas opiniões haviam sido fermentadas pelos anos. Da mesma forma que um homem velho, Gregório tinha cabeça velha, Gregório havia se tornado uma pessoa ainda mais intolerante, em uma medida que alguns de seus pontos de vista beiravam o insuportável. Trazia um senso moral retrógrado e via com desconfiança tudo que hoje acontecia.
Gregório me fora família, e observou que estes genes do sangue estariam em todo de nós que não morresse por violência ou acidente. Gregório me pediu que tomasse bom cuidado com meu corpo e meus caminhos. Gregório era cristão.
O que sobraria para mim, Sem Deus, no passar dessas eras?
Deus não chegara aqui; ficou pelos tempos de Gregório.
Eu pensei que o tempo trouxesse entendimento, mas não além de nossa vontade nos pode trazer discernimento.
Era minha sina, então, ser o oposto de Gregório; ao lado de “O Sem Deus” poderia me chamar “O Desconstruído”, pois trilharia todos os anos em um dia após o outro de me desfazer e me refazer num continuum em branco.
O que é morrer? O que é não morrer? Meu corpo não será o mesmo - todos os dias boa parte de minhas células morre e se renova. Minha consciência também não será a mesma - a cada segundo minha ideias e concepções se implodem. Descobri, assim, que não morrer significa morrer todos os dias; sem dor, sem drama, sem novela. Deixarei de existir continuadamente de forma perpétua.
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