Longe do nosso comprometimento com o que a sociedade espera de nós - e não que esse argumento tenha alguma relevância além da hipocrisia que sempre cruzou essa relação - existiu uma viagem, quando deixei minha casa, nos encontramos e fomos pra Viena. E não dissemos a ninguém - sem Instagram nem nada, só fomos, e passamos cinco dias fingindo que éramos dois, em preto, veludo e perfumes, ao som de Nick Cave, Rufus Wainwright, Camille Saint-Saëns e todas essas músicas profundas que fazem pulsar o coração. Nessa imersão fingimos que éramos outros e esquecemos de cada detalhe da nossa vida; e foi assim: uma falha técnica, um erro na linha da vida que quase não ficou salvo nas funções cerebrais, e sobre o qual por vezes nos perguntávamos se tinha de fato acontecido. Um grandiosíssimo, clássico e teatral fetiche - houve até a chance de esquecermos o português, esquecermos de nós e de onde tudo começou. Nós fingimos e comecou (e terminou) ali.
E o que me dá raiva, não é... - são as ausências de cor e as noites de lua; e os seus beijos - que percorrem o salão antes de pararem em mim - e o fogo das noites delirando e escrevendo esses textos.
E eu vou sair daqui e pagar dez prostitutas diferentes pra que encenem o texto, todas com seu tom de pele, todas de veludo, e todas com o seu perfume. E eu vou navegar e talvez esquecer o perfume, o veludo e a pele, e encontrar pra mim outro delírio pra sonhar. E vai levar mais um ano pra que eu possa ver seus olhos - já se foram seis desde a primeira vez - e, espero, de coração, que eles não me joguem aqui nesse blog de novo. Espero que eu consiga pelo trabalho esquecer de viver, esquecer das minhas tragédias e espero que daqui pra estarmos velhos - cada um no seu canto - eu possa te ver sem ter lágrimas nos olhos - ao fim da noite.
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