Foram muitos anos acreditando em toda a porcaria que o cristianismo tinha me feito acreditar. Love is not a victory march; it's a cold and it's a broken, hallelujah. Eu achei que ela ia me amar porque eu amava ela, e que não tinha como ela não ser feita pra mim, tamanha a maldição que me abatia.
Quanto mais eu me contorcia, mais sonhava, me apaixonava e fermentava esse processo de divinização dela. É claro que sempre idolatrei (não amei) uma representação que nunca existiu. E passei a repetir esse processo de divinização com todas as mulheres por quem me apaixonei. Nunca aprendi a lidar com as pessoas, mas o meu sentimento por elas sempre foi artístico e arrebatador. Eu fiquei viciado nessa droga, fiquei viciado em criar essas entidades e me alimentar delas como egrégoras.
Essa frustração me fez achar que eu era um merda e que nunca ia conseguir ser desejado por uma mulher. Impegável e inamável, insuscetível de ser querido. Parecia que a única escapatória pra minha existência era mostrar o meu valor, talvez pra mim mesmo, elegendo um propósito e seguindo ele às últimas consequências.
E foi isso que me trouxe até aqui. Às vezes penso até que, no fundo, quero que esse amor não correspondido me veja na televisão. Talvez queira que ela se arrependa de tudo e reapareça na minha vida pra gente deixar todas as coisas e ir morar numa casa distante, perto de uma cachoeira, com muitos cachorros e uma caminhonete. Só talvez.
Quando venho pra CG sinto um peso grande por todos os meus outros amores não correspondidos, todos arrebatadores, todos com minha carta de alforria pra fora desse mundo. E quando penso em voltar a morar em CG lembro de todas essas rejeições e percebo que eu preciso continuar fiel ao propósito, porque aqui não existe nada pra mim além de ilusões.
Inclusive por muito tempo eu quis acreditar que existia uma foice cortando da minha vida tudo que não atendesse esse propósito.
Não acho que isso seja a tônica da minha vida e muito menos o único fator. Não saí ileso dessa conversa de propósito, perdi o meu e mais uma vez fiquei perdido nesse labirinto que é a vida. E essa falta de propósito me faz estudar e pesquisar muito de tudo. Me faz querer achar um sentido pra vida, e esse é outro capítulo.
Hoje eu acho que perdi mais uma ilusão, e fiquei muito pensativo sobre isso. Eu tenho a impressão de que relações comuns não me fazem muito feliz; eu preciso divinizar alguém e manter esse alguém. Uma vez tendo provado desse delírio eu não vejo graça em relações normais.
Quero te ver de veludo, perfumada, e te sentir levitar até mim. Quero muitos sonhos incômodos e me sentir devorado. Quero muitas noites. Quero sentir o coração derreter, a mão tremer. Quero esquecer tudo que eu sou e gaguejar, paralisado. Eu quero a ilusão de que não sou impegável, inamável e insuscetível de amor e de ser querido.
E eu sei que isso é um fator determinante pra que eu sempre esteja frustrado. Mas também penso que isso me dá o poder de ser mais feliz do que qualquer outra pessoa por alguns momentos, quando um toque mexe comigo mais do que qualquer orgasmo. Então me recuso, também, a abandonar meu jeito de amar
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