Montag, 25. Juli 2016

A luz emanava dela própria

"Foi como se, de repente, tivessem me caído as escamas dos olhos. Tive a sensação de um cego que, subitamente, recobra a visão. O bispo, há pouco tão brilhante, desapareceu de repente, as velas empalideceram nos seus castiçais de ouro com as estrelas de madrugada, e na igreja reinou a mais completa escuridão. A encantadora criatura destacava-se nesse fundo de sombra como uma revelação angélica; parecia que a luz emanava dela própria, que era ela que prodigava luz em vez de recebê-la.

Baixei as pálpebras, resolvido a nunca mais levantá-las, para desviar-me da influência dos objetos exteriores; porque a distração me invadia cada vez mais e eu mal sabia o que fazia.

Um minuto depois, abri de novo os olhos, porque através dos cílios eu a via brilhando com todas as cores do prisma, numa penumbra púrpura como quando se olha o sol.

Oh! Como era bela! Os maiores pintores que, perseguindo no céu a beleza ideal, produziram na terra o divino retrato da Madona, nem sequer se aproximam dessa fabulosa realidade. Nem os versos do poeta, nem a paleta do pintor conseguiram dar a mínima ideia. Era bem alta, com uma figura e um porte de deusa; os cabelos, de um louro suave, separavam-se no alto da cabeça caindo sobre as têmporas como duas ondas douradas; parecia uma rainha com o seu diadema. A testa, de uma brancura azulada e transparente, estendia-se larga e serena sobre o arco das sobrancelhas quase castanhas, singularidade que aumentava ainda mais o efeito das pupilas verdes cor de mar, de uma vivacidade e de um brilho insustentáveis. Que olhos! Com uma cintilação decidem o destino de um homem. Eram de uma limpidez, de um ardor, de uma umidade brilhante que jamais vi em um olho humano; deles saíam raios semelhantes a flechas, que sentia distintamente tocarem o meu coração. Não sei se a chama que os iluminava vinha do céu ou do inferno, mas certamente vinha de um ou do outro. Essa mulher era um anjo ou demônio, possivelmente as duas coisas; certamente não saíra do flanco de Eva, a mãe comum. Dentes perfeitamente brancos cintilavam no seu sorriso vermelho e pequenas covinhas desenhavam-se a cada inflexão de sua boca no adorável cetim rosado das faces. Quanto ao nariz, era de uma delicadeza e de uma altivez real, revelando uma nobre origem. Ágatas brincavam sobre a pele lisa e lustrosa dos ombros semidescobertos, e duas fileiras de grandes pérolas rosadas, de um tom quase idêntico ao de seu pescoço, desciam-lhe sobre o peito. De vez em quando, erguia a cabeça num movimento ondulante de cobra ou de pavão que se empertiga, imprimindo um ligeiro frisson ao peitilho bordado que lhe rodeava o colo como um tecido de prata.

Usava um vestido de veludo nacarado e das largas mangas bordadas de arminho saíam duas mãos nobres, infinitamente delicadas, de dedos longos e roliços, e de uma transparência tão ideal que a luz penetrava por eles, como através dos dedos da Aurora.

Todos estes detalhes estão, para mim, tão vivos como se datassem de ontem e, embora me sentisse muito perturbado, nada me escapava: a menor nuance, o pequeno sinal negro no canto do queixo, a penugem imperceptível na comissura dos lábios, o aveludado da fronte, a sombra trêmula dos cílios sobre as faces, eu percebia tudo com uma lucidez espantosa.

À medida que a olhava, sentia que se abriam diante de mim portas até então fechadas; saídas obstruídas apontavam para todos os sentidos e deixavam entrever perspectivas desconhecidas; a vida me aparecia sob um aspecto completamente diferente: acabava de nascer de novo. Uma angústia terrível instalou-se no meu coração; cada minuto que passava me parecia um segundo e, ao mesmo tempo, um século. No entanto, a cerimônia continuava a acontecer, afastando-me para bem longe do mundo cuja entrada meus recentes desejos fustigavam furiosamente. Disse sim, quando queria dizer não, enquanto tudo em mim se revoltava e protestava contra a violência que minha língua fazia a minha alma: sem que eu quisesse, uma força oculta arrancava-me as palavras da garganta. É isso, talvez, que faz com que, de tantas jovens que caminham para o altar com a firme resolução de recusar o esposo que lhes é imposto, nenhuma execute o seu projeto. É também essa a razão por que tantas e infelizes noviças tornam o véu, apesar de firmemente decididas a rasgá-lo no momento de pronunciarem os votos. Ninguém ousa causar tal escândalo diante de todos, nem frustrar a expectativa de tantas pessoas; todas essas vontades, todos esses olhares parecem pesar sobre nós como uma chapa de chumbo; e, depois, tudo está tão bem organizado, tão bem previsto, de um modo tão claramente irrevogável, que o pensamento cede curvando-se completamente diante do peso do ato".

(Gautier).

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