Samstag, 4. Januar 2014

AO DESCONC(S)ERTO DO MUNDO

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.

Luiz Vaz de Camões



Bem triste, eu tenho que confessar.... 21, cara, eu não esperava assim.

Se eu morasse em qualquer outro lugar... Se eu tivesse nascido em um lugar calmo.
Se eu pudesse, qualquer outra coisa eu teria sido.

Eu queria mesmo ser compositor. Arquiteto. Eu queria desenhar HQ, escrever ficção. Queria tanto...
A gente olha tudo isso...

Em um país miserável a primeira coisa que desaparece é a juventude. Perdi já boa parte da minha, e todo mundo, inclusive eu, leva-me à sério demais.

Eu lamento, lamento... Eu enterro minha juventude em livros e soluções pras nossas confusões, e passo a minha vida sonhando com um lugar calmo... Outro lugar. Um lugar livre.

Um lugar em que alguém possa ser compositor, arquiteto, desenhista, escritor. Um lugar em que todo mundo viva igual, seguro.

Eu sonho demais com um lugar livre, em que os mais novos possam se juntar aos montes. Possam andar à noite, sair de cidade a cidade, andar de bicicleta, correr pelas ruas.

Eu sonho com esse lugar, que tanto eu queria pra mim.

Mas eu não fujo daqui. Vou, pelo contrário, firmar meus pés nesse deserto.


Eu quero que todos saibam: eu não sou quem sou.


Deixei de ser quem era, e hoje me aproveito do que sou pra fazer de mim algo útil a esse mundo desgraçado.
Deixo pra trás tudo isso, pela vontade de ver as pessoas se juntarem aos montes, andarem à noite, sairem de cidade a cidade, andarem de bicicleta, correrem pelas ruas.

Deixo pra trás tudo isso pelo desejo que me consome de que alguém possa ter a calma de ser compositor, arquiteto, desenhar HQ, escrever ficção. Pra que alguém possa viver livre, seguro.

Deixo minha guitarra, meus desenhos, meus poemas, e agora quero entender como tudo funciona e quebrar esse padrão de sociedade.

Deixo pra trás tantos, mas tantos amores, mulheres, meninas, peles, cabelos, olhares, mãos, conversas fantásticas e um convívio social aquecedor.

Deixo pra trás amigos.


Sou triste.
Por ter nascido nessa geração desse país.
Não posso ser feliz, nem realizar individualmente minha existência.


Sempre uma vontade filha da puta de mandar o maior abraço do mundo a todo mundo que deixei pra trás, bem como a todas as amizades que por conta do exposto nunca fiz.

Contudo, ainda maior para cada amizade-amor-bem-fogo-valor insubstituível que não pude, não posso, e não poderei cuidar como queria. Cada uma é uma cratera eterna no meu peito. Because we separate, like ripples on a black shore.




Hello,
Is there anybody in there?
Just nod if you can hear me

Is there anyone at home?


I can't explain, you would not understand,
This is not how I am!

I have become comfortably numb.


The child is grown,
The dream is gone.
And I have become
Comfortably numb.

Reckoner
Take me with yer
Dedicated to all human beings.


[Comfortably Numb, Pink Floyd. Faixa 6, Disco 2, The Wall. / Reckoner, Radiohead. Faixa 7, Disco 1, In Rainbows].

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