Freitag, 31. Januar 2014

NESTA CHOUPANA, NESTA SOLIDÃO, NESTE ISOLAMENTO

"20 de janeiro

Preciso escrever-lhe, minha querida Lotte, do quarto de uma pobre hospedaria campestre, onde me refugiei do mau tempo. No triste lugarejo de D..., convivendo com gente absolutamente estranha a meus sentimentos, não houve um instante, um só, em que meu coração me impelisse a escrever-lhe; e agora, nesta choupana, nesta solidão, neste isolamento, enquanto a neve e o granizo açoitam minha janela, foi para você meu primeiro pensamento. Logo que entrei, sua imagem, Lotte, fez-se presente e me dominou, tão sagrada, tão viva! Deus do céu, é o primeiro instante de felicidade que volto a ter.

Se me visse, minha amiga, perdido em divagações! Como se vão ressequindo meus sentidos! Em nenhum momento tenho meu coração repleto! Nem uma hora feliz! Nada, nada! Estou aqui como diante de um teatro de marionetes: vejo os homenzinhos e os cavalinhos girando a minha frente, e muitas vezes pergunto a mim mesmo se não é ilusão de óptica. Divirto-me com isso, ou melhor, divertem-se a minha custa, como se eu fosse uma marionete; às vezes pego meu vizinho pela mão de madeira e recuo assustado. À noite, tomo a decisão de ir ver o nasccer do sol, mas não saio da cama; durante o dia, planejo gozar o prazer de contemplar a lua cheia, mas permaneço no quarto. Nem sei bem por que me levanto, ou por que me deito.

[...]

Aqui só encontrei uma mulher, uma senhorita de B... Parece-se com você, Lotte, se é que alguém pode parecer-se com você. "Então, quem diria?! - você pode pensar - "agora ele deu para fazer uns belos elogios!" Isso não deixa de ser verdade: de uns tempo para cá, sou muito amável, porque não posso fazer outra coisa; tenho muito espírito, e as mulheres dizem que ninguém sabe elogiar com tanta delicadeza... "Nem mentir" - acrescentará você - "porque uma coisa não passa sem a outra..."

Queria falar-lhe da senhorita de B... Tem muita alma, a gente logo vê pelo brilho de seus olhos azuis. A posição social em que vive não satisfaz nenhum dos anseios de seu coração. Aspira sair desse tumulto, e passamos horas inteiras sonhando paisagens campestres, uma felicidade sem máculas. Nesses momentos falamos de você, Lotte! Quantas vezes ela se vê obrigada a lhe render homenagens; obrigada, não: faz isso de bom grado; gosta de ouvir-me falar de você, estima-a.

Ah! Lotte, quem me dera estar a seu lado, na saleta aconchegante e tranquila, tendo nossos pequenos queridos brincando em torno de mim. Depois, quando o barulho se tornasse grande demais, eu os reuniria em círculo e iria acalmá-los contando-lhes uma história mirabolante!

O sol vai-se pondo majestosamente no horizonte, onde pontificam colinas cintilantes de neve; a tempestade passou; e eu... tenho que voltar para a minha prisão...

Adeus. Albert está a seu lado? E como?...

Deus me perdoe por essa pergunta!"




(GOETHE, Johann Wolfgang, 1749-1832. Os sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Abril, 2010. p. 87-88.).

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