Hoje sonhei. Sonhei que estava na churrasqueira do prédio - algum prédio. Tava escuro, e frio. Granito. Havia uma mesa de plástico, daquelas brancas, de salão de festas. Era tarde, meio da noite. Havia Ruffles espalhado na mesa, e a embalagem rasgada lá por cima. algumas cadeiras. Eu estava sozinho. Muito, muito sozinho. O frio e a solidão pareciam um só espírito, que atormentava a situação em que eu me encontrava. Era fim de festa. Fim de encontro, daqueles encontros com os amigos na churrasqueira do prédio, com violão, amigas bonitas e tudo. A luz estava acesa sobre a mesa de plástico. Mas isso não diminuía o tamanho da solidão. O Ruffles espalhado. Alguém havia passado por ali. Mas agora era só pedra, frio, pedaços de comida, bagunça. A solidão não era só solidão, era uma dor de punhalada no peito. Era lágrimas nos olhos.
O Ruffles não era daquele dia. O Ruffles era de alguns anos atrás. Foi tamanha minha solidão. A cadeira de plástico. Aquela sensação de que alguém (ns) que eu amava, muito, havia passado por ali, mas foi embora, há alguns anos. E eu? Fui embora? Eu fiquei? Por que, ali, sozinho? Era tarde. Tarde demais.
Havia um grito, de dor, de gente ou animal; um grito. Me congelou. De quem é esse grito? Sem esperança. Trêmulo. Estridente. A essa hora, nesse lugar tão vazio. Alguma coisa aconteceu, perto, dentro do salão. Entrei em choque. Dor no peito, muita dor no peito. Acordei. Gritei. Levantei. Chorei.
Era meu grito?
Onde tá todo mundo? Por que foram embora e me deixaram só, com o Ruffles espalhado na mesa?
Ficaram as cadeiras vazias, dos meus amigos, os meus irmãos. Dos meus amores.
Eu pedi um segundo; um segundo, no meio da farra - "vou ali, já volto, esperem por mim". Mas não deu. Não puderam. Eu voltei. A festa acabou, todo mundo foi pra casa. Tarde demais. Eu entrei, mas só havia uma luz acesa. As cadeiras espalhadas. Uma mesa de plástico. Resto de Ruffles.
Eu entrei numa caverna, todo mundo mudou. Provavelmente sou ainda o mesmo. Meus amigos, e meus amores tão profundamente queridos; eu os amo, a todos, como se ainda estivessem aqui. Eu não queria ir; me prendi, esse virou meu lugar, essa churrasqueira vazia. Meus sonhos são os mesmos. Eu não queria ir. Uma ou outra coisa, uma ou outra pessoa, são coisas das quais me arrependo, talvez tudo hoje fosse totalmente diferente. Talvez alguns ou algumas não lembrem mais de mim, mas estou aqui - e os amo profundamente.
Eu teria feito diferente, coisas muito importantes. Isso me faz querer dar um reset em algumas coisas. Houve coisa que mudou definitivamente. Puxei a alavanca errada e o trilho mandou o trem de nossas vidas - pelo menos quatro ou cinco - pra um rumo que não deveria ter tomado. A alavanca não foi pedir pra sair na festa, foi antes disso. Tanta merda se fez nesse lapso. Tanto desentendimento bobo. Eu não teria feito, nem começado, coisas, se soubesse que me fariam ao fim perder alguém. Antes perderia no início outrem. E eu vivo navegando, flutuando nesse limbo, esperando nessa churrasqueira, com uma dor no peito, que me digam que podemos começar de novo. Eu diria eu mesmo, diria sim, e pra isso tenho coragem - ou desespero - de sobra. Diria, se soubesse que não faria alguém ir embora de vez. Se eu tivesse a certeza de que alguém estivesse pensando "gostaria que ele falasse", eu falaria, e a gente recomeçaria. When thou dost ask me blessing, I’ll kneel down and ask of thee forgiveness. So we’ll live, and pray, and sing, and tell old tales, and laugh at gilded butterflies, and hear poor rogues. Talk of the news, and we’ll talk with them too — who loses and who wins, who’s in, who’s out. And take upon’s the mystery of things, as if we were God’s spies (King Lear, Act 5, Scene 3). Eu preciso ardentemente dizer que essa é uma das minhas mais dolorosas esperanças, que guardo nesse granito, nessa mesa de plástico, nesse Ruffles espalhado. Doloroso. Me faz voltar às cortinas vermelhas, às cadeiras, ao palco, e observar a mim mesmo tomando os passos mais errados da minha vida, dando o tchau que nunca deveria ter dado.
Voltei, à churrasqueira. Voltei, e a festa acabou. E agora, José?
Eu vou embora. Eu não vou poder mais voltar. Eu nunca mais vou poder voltar. Eu queria muito que você soubesse disso. Então faça o favor de aparecer no meu prédio se não quiser deixar tudo como está; vou fingir que é normal, e a gente vai conversar, e tudo vai clarear.
Eu não queria... Quero levar comigo essa churrasqueira, deixar o Ruffles na mesa esperando. Esperando essa noite ter fim. Quero sentar - na cadeira, de plástico. Eu quero esperar - os beijos mais importantes que não pude receber. Eu quero pedir perdão - mil vezes, e depois mais mil, por ter puxado a alavanca errada. E ainda por, depois, ter te atingido com tantas palavras e sentimentos descoordenados. Eu sinto tanto. Eu não quero ir, não quero, não quero. E aí eu entendi meu sonho; é aqui que eu estou. Eu puxei essa alavanca, essa alavanca errada, e fiquei só, sozinho, depois do fim da festa, esperando consertar o que não tem mais conserto. Eu tô na churrasqueira. E esse granito, essa mesa, esse Ruffles, tudo isso dói demais, isso é o meu fantasma.
Mas eu estou indo embora da churrasqueira... Eu estou apagando a luz. Não é nada motivacional, nem se trata de superação; o sangue vai escorrer daqui até minha próxima caverna. E talvez lá eu morra.
Garanto que minha culpa e meu desalento vão eternamente procurar por sua aura, em meio a Ruffles, copos descartáveis, mesas de plástico. Assim, não há fim: não há prazo; diga mencione respire olhe nos meus olhos e entenderei, and I’ll kneel down and ask of thee forgiveness. So we’ll live, and pray, and sing, and tell old tales, and laugh at gilded butterflies. Venha até minha caverna, acene, será sempre sempre bem vinda, por mais que eu não esteja só. Carregarei sempre a esperança de encontrar seu olhar novamente e, pela primeira vez, ouvir o que se passa com você.
Eu nunca mais vou poder voltar. Mas você será recebida, com carinho de quem espera, se quiser me visitar,
Eu vou embora, e depois de encostar a mesa, de jogar o lixo no cesto do salão, empilhar as cadeiras e apagar a luz, guardo no peito duas esperanças. Espero que a gente possa, pelo menos uma vez, saber se eu realmente puxei a alavanca errada. É minha maior esperança, que a gente tente, ao menos uma vez, depois de tanto desentendimento e tanto problema. Words are very unnecessary, they can only do harm.
A segunda esperança, no entanto, é de que, caso eu espere, e você esqueça do nosso pretérito imperfeito, eu possa dar o reset sozinho. E nesse novo lugar eu recomece, com novos sorrisos, novos desejos, novas várias alavancas; espero novas histórias. Nesse lugar, um lugar só meu. De grama, de jeep, cachorros, música, malzbier. Ser aquele a quem já chamei de Lulf (http://contosparalelos.blogspot.com.br/2009/10/contos-de-lulf-o-feliz.html). A segunda esperança, então, é que essa seja a minha paz final.
Eu não tenho mais o que falar, depois de tanto que já falei. Tanto. Falei muito mais do que deveria, muito mais do que teria sido saudável para você ouvir.
E quanto aos meus amigos, os meus irmãos, a minha casa será sempre sua, e haverá, sempre, uma churrasqueira, mesas de plástico e violões esperando, porque só com vocês eu me sinto completo; um pedaço de mim vivendo em cada canto, como órgãos de um mesmo corpo. É assim que a gente se entende. I'm so happy 'cause today I've found my friends; they're in my head. I'm so ugly, but that's okay, 'cause so are you, and we've broken our mirrors.
Ich gehe... bald.
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