Freitag, 18. März 2022

cartas

Eu queria te escrever cartas
De amor
Pra que você só lesse quando entender o que é amor
Quando entender o que eu quero dizer
Porque nem eu sabia, meu amor, o que era amor, até conhecer você 
E eu te repito exaustivamente na tua idade tenra
Que eu te amo, eu te amo e eu te amo
E você nunca vai lembrar de quando, pequena
Você me ouvia dizer isso nas nossas manhãs 
E algumas lágrimas me escapavam dos olhos

E por mais que você não vá lembrar
Das nossas manhãs 
Dos apartamentos em que a gente morou
Das nossas bananas com pasta de amendoim
Das suas danças em cima do sofá 
De que eu decorei todos os episódios de Masha e o Urso
Eu amei você, por cada segundo, e eu nem tava pronto pra amar

Eu não era pai, eu era um moleque
E eu tinha muita coisa minha não resolvida 
E talvez chegando nessa mesma idade você ainda não entenda o meu amor por você 

Mas quando você chegou tudo mudou de forma
E nas vezes em que eu quase morri você e sua mãe eram a única coisa na minha cabeça 
Eu não deixei de ser essa coisa escura, essa coisa melancólica 
Mas você rompeu tudo isso
Assim como a sua mãe 
Que me deu a vontade de viver, que você renovou, e de ainda estar com vocês quando você tiver condições de entender o quanto eu te amo.

Helena, eu te amo, eu te amo, eu te amo. E por mais que eu seja alguém sentimental, nenhum amor que eu tive na vida jamais se comparou ao que eu sinto por você.

E quem fala não é o seu pai. Você se engana quando se refere a mim como seu pai. Quem fala é Neto, um cara todo errado, incompleto e com defeitos que eu nunca vou omitir. Esse monstro desmantelado que eu sou, longe de um anjo, e longe de ser alguém maduro.

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